Cortiçais—Peniche

Grupo de Estudos e Pesquisas Subaquáticas

 

Descoberta de ânforas no mar de Peniche

 

No início de 2004, o caçador submarino de Peniche, Luís Santos Jorge, achava cerâmica romana no fundo da costa Sul daquela Península.

Contactos com o cenógrafo local Jorge de Carvalho e com o Médico e mergulhador Luís Fonseca, levariam a uma série de campanhas arqueológicas subaquáticas naquele local, dirigidas pelo arqueólogo Jean-Yves Blot no âmbito dos trabalhos do IPA/CNANS—Centro Nacional de Arqueologia Subaquática.

 

 

Ânfora Haltern 70

Foto: Carlos Antunes

Estas campanhas que decorrem ainda hoje, têm o apoio do GEPS, da Câmara Municipal de Peniche e do Clube Naval de Peniche.

Este sítio arqueológico subaquático, viria a revelar-se muito importante para uma nova leitura da presença Romana na agora Península, antes Ilha de Peniche, no somatório dos trabalhos que outros arqueólogos desenvolvem nos fornos do Murraçal da Ajuda, na Ilha da Berlenga e que Jean-Yves Blot desenvolveu no Fundeadouro da mesma ilha.

 

O Presente texto, constitui-se como introdutório das problemáticas associadas a este sítio arqueológico do período romano:

Quinze dias numa ilha

 

 

A campanha submarina actualmente em preparação, organizada pelo Centro Nacional de Arqueologia Subaquática (CNANS, Instituto Português de Arqueologia) com a participação da associação GEPS (Peniche) e o apoio e participação da Câmara Municipal de Peniche, do Museu Municipal de Peniche e do Clube Naval de Peniche, irá decorrer durante a primeira quinzena de Maio de 2005.

 

A orientação do estaleiro submarino fica a cargo de Jean-Yves Blot, arqueólogo convidado pelo CNANS, com a participação de Mário Jorge Almeida, arqueólogo destacado pelo Museu Nacional de Arqueologia, e Jorge Freire, arqueólogo e associado do GEPS.

 

Os trabalhos serão realizados em parceria com o arqueólogo A. M. Dias Diogo, no que concerne a identificação dos materiais cerâmicos, e com Rui Venâncio, arqueólogo do Museu Municipal de Peniche, assegurando assim a relação estabelecida com esta entidade e com a Câmara Municipal de Peniche que garante um apoio directo aos trabalhos arqueológicos submarinos.

 

A logística humana da campanha é assumida numa parceria directa do CNANS com o Museu Municipal de Peniche (R. Venâncio) e o GEPS (J. Russo) através do qual está agendada a participação de alunos de arqueologia da Universidade de Coimbra.

 

A preparação dos equipamentos mecânicos (barcos, sugadoras, compressores baixa-pressão) utilizados para a campanha é da responsabilidade de Miguel Aleluia (CNANS, Aveiro) com a participação de Leonel Silva.

 

Os mergulhos efectuados no Outono e no início do Inverno pelo arqueólogo responsável, em colaboração com Luís Fonseca, de Peniche, Jorge Russo (GEPS), Carlos Antunes (GEPS), Rui Costa (GEPS) e outros, permitiram um reconhecimento e uma cartografia preliminares do sítio.

 

 

A ilha desaparecida

 

 

Ignora-se ainda, nesta fase, a origem precisa dos vestígios dos Cortiçais.

 

Diversos indícios levam, no entanto, a pensar que se trata de um naufrágio ocorrido há quase vinte séculos numa paisagem marítima radicalmente diferente da actual.

 

Peniche, há dois mil anos, era uma ilha rochosa ao largo de uma costa marcada pelo estuário de um pequeno rio, hoje assoreado, que passava pelo pequeno núcleo portuário de Atouguia da Baleia, actualmente isolado, no meio de terras agrícolas.

 

A ilha só ficou ligada ao continente por um cordão de areia a partir do final do período medieval2. Uma primeira fortificação foi então construída, em finais do século XVI, para defender o porto assim criado pela presença do cordão de areia, sendo posteriormente completada pela fortaleza, e pela actual muralha, construída no século XVII, que fecha, pelo lado de terra, o acesso à antiga ilha.

 

Nestas circunstâncias, é necessária alguma imaginação para reconstituir a geografia do que terá sido a antiga ilha cuja costa oriental correspondia, grosso modo, ao local onde se encontra a actual muralha que separa a cidade da zona industrial e suburbana. Um antigo presidente da Câmara de Peniche lembra ter visto o mar alagar toda esta parte e voltar a transformar Peniche numa ilha, por breves instantes, em marés vivas que ocorreram em meados do século XX.

 

Seja como for, a paisagem histórica da antiga ilha é completada pela descoberta, ocorrida no final dos anos 1990, de um conjunto de fornos de período romano em «Peniche de Cima», na zona norte da cidade actual, dentro do recinto das muralhas setecentistas. As escavações arqueológicas levadas a cabo nesses fornos nos últimos anos, pelo arqueólogo Guilherme Cardoso e os seus colegas, puseram em evidência uma produção local de ânforas destinadas à indústria de transformação do pescado.

 

Em contraste com esta produção local que veio redefinir os anteriores conhecimentos no que concerne a indústria de salga de peixe na costa lusitana no período romano, os fragmentos encontrados ao largo dos Cortiçais revelaram ter origem na Bética, actual Andaluzia, sendo, no máximo, datáveis de meados do século I da nossa era.

 

O facto da parte superior das ânforas - o melhor marcador para datar esse tipo de materiais - corresponder ao mesmo período no caso das quatro a seis ânforas até agora identificadas debaixo de água nos Cortiçais, sugere que se trata da perda acidental e repentina de um conjunto de ânforas.

 

 

A tirania do acaso

 

 

Tudo começou há cerca de um ano quando um caçador submarino de Peniche, Luís Santos Jorge, ao explorar em apneia uma zona muito frequentada dos fundos marinhos locais, notou a presença de alguns fragmentos de cerâmica cuja forma e dimensões atraíram a sua atenção. Alguns dos fragmentos formavam o bojo de um grande recipiente, enquanto que outros fragmentos mostravam a forma de uma boca, com asas de argila. Ao observar os fragmentos dias mais tarde, o desenhador Jorge Carvalho, de Peniche, informou o achador de que se tratava de ânforas, recipientes associados à  Antiguidade.

 

Os fragmentos foram posteriormente identificados pelo arqueólogo A. M. Dias Diogo que assinalou a origem bética da pasta das ânforas em questão, identificadas como pertencendo ao tipo Haltern 70.

 

Um detalhe crucial para o inquérito em curso, a forma dos lábios, na parte superior destes recipientes, permite datar todos os fragmentos «até» meados do século primeiro da nossa era.

 

Esta estrita isocronia ou simultaneidade no acto da destruição dos recipientes é um dos sinais mais comuns na análise arqueológica para assinalar uma perda acidental marcada por um congelamento de um conjunto de objectos no momento do naufrágio, e distingui-los de achados dispersos no tempo, como, por exemplo, os materiais abandonados pelos marinheiros do passado num fundeadouro, no decorrer de inúmeras estadias no mesmo local.

 

Esta subtil característica na datação dos lábios distingue os fragmentos anfóricos do sítio dos Cortiçais de outros achados do mesmo tipo ocorridos mais ao largo, nomeadamente no mar das Berlengas.

 

Achados de ânforas já não constituem novidade no mar de Peniche, onde os pescadores têm assinalado diversas ocorrências deste tipo, ao levantar as redes do mar da Berlenga3. Mergulhadores desportivos de Peniche como Luís Veríssimo ou Ricardo Costa, entre outros, foram os primeiros a assinalar, no fundo da ilha Berlenga, a presença de recipientes deste género, alguns dos quais figuram nas colecções do Museu Municipal de Peniche. Outras ânforas foram assinaladas por pescadores no rio Tejo4 ou ainda perto de Alcácer do Sal, no curso médio do Sado.

 

Num caso, ocorrido a cinquenta milhas da costa algarvia, ao largo de Tavira e Cacela Velha, um arrastão trouxe nas suas redes duas ânforas, uma das quais de tipo Haltern 70, a forma dominante no mar da Berlenga. O achado neste caso deu-se em 320 braças de profundidade5.

 

Quando as ânforas são encontradas em fundeadouros, como ocorreu na ilha Berlenga, a forma dos lábios permitiu constatar que se tratava de recipientes fabricados em períodos diferentes, ao contrário da isocronia de um naufrágio.

 

No entanto, tal como nos Cortiçais, a ânfora Haltern 70, fabricado na região do rio Guadalquivir, o rio de cidades como Sevilha ou Cordoba, constitui a maioria dos achados deste tipo ocorridos no mar da Berlenga, tratando-se, neste caso, de ânforas associadas ao transporte de vinho ou a produtos derivados do vinho.

 

A interpretação dada a estas longínquas e fugazes presenças no mar da Berlenga de outrora é a de constituírem as marcas da passagem de tripulações vindas do sudoeste ibérico que teriam consumido o conteúdo antes de abandonar os recipientes.

 

No caso dos Cortiçais, estaríamos em presença não de um abandono ocasional, e isolado, mas sim da perda simultânea de um conjunto. Um naufrágio, portanto.

 

 

A Biblioteca

 

 

O universo do estudo das ânforas apresenta, para o leigo que o penetra pela primeira vez, a complexidade de uma biblioteca monumental, mas de espólio incerto, e sempre em movimento, gerida por inventários em constante reajustar, no meio de um concerto de opiniões discordantes procedendo de todos os bibliotecários.

 

Trata-se, em suma, de um magnífico palco de complexidade aberto a muitas leituras, inúmeras perspectivas, mas para o qual os «manuais de utentes» são escassos. Algumas grandes obras de referência, incontornáveis, marcam a disciplina ao longo de pouco mais de um século. Entre os nomes mais em destaque figuram os do alemão Heinrich Dressel, epigrafista corajoso e organizado, que se interessou pelos materiais do Monte Testaccio, uma «colina» de fragmentos anfóricos, em Roma. No decurso do seu inventário das inscrições do Monte Testaccio, Dressel elaborou uma «tabela» de formas de ânforas que achava mais relevantes para a sua amostra. Nasceu assim, sem que o seu criador desse pela importância do invento, a primeira tipologia de ânforas da então ainda jovem arqueologia. Meio século mais tarde, o britânico Callender6, ao interessar-se pelos materiais cerâmicos de período romano presentes em solo britânico, aborda uma nova faceta do estudo das ânforas. A sua tese, publicada vários anos após o trabalho ter sido completado, foi seguida de inúmeros outros trabalhos. Nuno Lamboglia, na Itália, abordava, por seu lado, o estudo de ânforas provenientes inclusive do fundo do mar, ânforas inteiras, desta vez, e, frequentemente, intactas. Outros autores se seguiram, com destaque para nomes como Mañá7, Beltrán Lloris8 ou Pascual, em solo ibérico, ou outros como André Tchernia9, S. Keay10 ou Stefänie Martin-Kilcher11 em torno de produtos ibéricos, num contexto em que o crescente número de publicação dos trabalhos tendia para acelerar de maneira explosiva12.

 

Tratava-se doravante de uma exponencial em termos editoriais, colocando o leigo num dilena parecido com o de uma das personagens do Père Goriot, um romance de Honoré de Balzac, de 1830.

 

No meio de um banquete bem regado reunindo eruditos, artistas ou políticos, a personagem, grande leitor, grita o seu pavor perante o número de títulos já impressos e disponíveis para a leitura: um Milhão !

 

Uma vida humana, lembrava a personagem de Balzac, só permitia ler uns 150 000 títulos, ou seja, pouco mais da sétima parte do total dos títulos então existentes.

 

O universo das ânforas ainda não coloca o leitor potencial perante tais angústias, mas para lá caminha.

 

Felizmente, estas marés de cerâmica passada a papel foram ocasionalmente geridas por alguns pilotos de barra. Peacock e Williams, dois britânicos, figuram nesta lista preciosa dos refundidores do paradigma, e propõem ao leitor uma visão abrangente e coerente num livro de fácil acesso editado em 198613. Um dos ângulos essenciais da sua proposta passa pela descrição detalhada das pastas, um caminho para a identificação da origem do local de produção de cada recipiente14.

 

Mais pragmáticas ainda, ou simplesmente com um horizonte bem mais modesto, duas arqueólogas francesas, Martine Sciallano e Patrícia Sibella, pensaram nos utentes potenciais que não fossem arqueólogos, e propuseram, em 1991, um manual reeditado em 1994, muito simples de utilizar, destinado aos mergulhadores, entre outros15.

 

Muitos outros títulos poderiam ser citados, dependendo a escolha do horizonte do leitor16 ou do período ou área geográfica investigado17.

 

 Um dos temas mais aliciantes tem a ver com a reconfiguração das redes de produção do vinho no final do período republicano romano e início do período imperial. Pouco menos de meio século antes do início da nossa era, assiste-se a uma diminuição brutal das exportações de vinho italiano em direcção ao Ocidente18 e a presença crescente, em solo italiano, de produtos oriundos da periferia, nomeadamente da península ibérica. Os vinhos requintados itálicos do período anterior, vão suceder vinhos ibéricos de boa qualidade e produzidos em grande quantidade. Na vasta rede comercial romana, dois pólos mantêm o seu poder de atracção: Roma, gigantesca metrópole que irá atingir um milhão de habitantes no período imperial, e os campos militares das longínquas fronteiras do norte da Europa, para os quais todos os sacrifícios são poucos.

 

Roma passara progressivamente a consumir os produtos oriundos dos confins ocidentais do império, incluindo o vinho e o azeite da Bética e os produtos derivados do pescado, uma indústria que ira prolongar durante vários séculos na Lusitânia.

 

E nessa viragem dos circuitos comerciais e de consumo que se situam os vestígios de grandes recipientes de cerâmica identificados nos Corticais.

 

Os primeiros fragmentos identificados por A. M. Dias Diogo provenientes deste sitio da costa sul da antiga ilha de Peniche mostram-nos que, mesmo neste caso de meia dúzia de ânforas, todas iguais e do mesmo período, nada é simples para o leitor desejoso de aprofundar a questão.

 

Em primeiro lugar, o nome.

 

 

Longe, num meio hostil

 

 

As ânforas dos Cortiçais examinadas em 2004 pertencem ao tipo Haltern 70, que corresponde ao número «setenta» de um conjunto de formas cerâmicas identificadas nos primeiros anos do século XX por um jovem arqueólogo alemão chamado Siegfried Loeschcke, filho de um professor universitário do Norte da Alemanha.

 

O Norte da Alemanha era conhecido pelos legionários do Império Romano como a terra dos confins, o Limes, fronteira perigosa e setentrional do Império.

 

Nesses limites setentrionais do mundo romano, o estado dispunha de uma linha de campos militares bem apetrechados para o conforto dos ocupantes. Reflexo desses pobres luxos de militares em guarnição, isolados em zonas de risco, a cerâmica escavada, desenhada e estudada por Loeschcke e os seus colaboradores cobre um vasto leque de materiais que vão desde a ânfora importada com vinho ou azeite até cerâmica erótica. Os legionários melhor equipados dispunham de esgotos. Graças a uma vastíssima rede comercial de importação de bens alimentares, podiam dar-se ao luxo de comer à maneira do sul, apesar de rodeados de névoas, de frios e de Germanos hostis.

 

Siegfried Loeschcke, que acabou os trabalhos em 1908, tendo-os publicado no ano seguinte19, nunca supôs que esta sua série de descrições e desenhos pudesse vir a ser, um dia, parte da panóplia da arqueologia ibérica.

 

Entre as formas que isolou e desenhou, Loesckcke distingue a que corresponde ao « Typus 70», imediatamente ao lado da seguinte, o « Typus 71».

 

Para a arqueologia, o tipo Haltern 70 tinha acabado de nascer. Loesckcke suspeitava que se tratasse de um recipiente de origem meridional e, a título de hipótese, sugeria que fosse proveniente de Narbonne, no Sul de França.

 

O «nascimento» do tipo Haltern 70. Num texto publicado em 1909, Siegfried Loeschcke propõe pela primeira vez uma descrição do typus 70, uma ânfora que este arqueólogo alemão identificou entre os materiais cerâmicos deixados, cerca de dois milénios antes, pelos legionários do acampamento romano de Haltern, no antigo limes germânico (fragmento da página 256 da edição de S. Loeschcke, Munster, 1909).

                         

Quanto ao tipo «71» de Loesckcke, os arqueólogos de hoje reconhecem nele uma «outra» forma designada como tipo «20» de Heinrich Dressel, a ânfora mais pesada jamais fabricada no período romano (Molina Vidal, 1997: 151).

 

Os leitores mais atentos poderão discordar e observar que, afinal, o tipo Haltern 71 também existe na literatura actual20, interpretado neste caso como uma versão emergente e precoce da pesada Dressel 20, esta última destinada ao transporte de azeite e de origem bética, como a Haltern 70 (Molina Vidal 1997: 145).

 

Seja como for, o exemplo vale para mostrar que, já em 1908, o próprio Loeschcke tinha problemas com o tamanho e dispersão da «biblioteca», já que os trabalhos de Heinrich Dressel tinham, nesta altura, sido publicados dez anos antes. O mesmo Dressel tinha inclusive já publicado muito antes uma primeira descrição gráfica de um ânfora Dressel 2021. Havia, portanto, maneira, em 1908, de observar e estudar no papel a forma geral da ânfora que Dressel identificou com o número «20».

 

Para os curiosos interessados em ler alemão na sua caligrafia clássica, gótica, uma cópia do precioso texto de Loeschcke (editado em 1909) sobre as cerâmicas de Haltern existe em Belém, a escassas dezenas de metros do Rio Tejo, na Biblioteca do Instituto Português de Arqueologia.

 

Alguns autores posteriores a Loeschcke trataram de diversas maneiras a forma correspondendo à Haltern 70. O tema da Haltern 70 ganhou firmeza nos anos 1970 com a descoberta, e posterior escavação, de um naufrágio do século primeiro da nossa era na costa Sudoeste francesa, no Mediterrâneo. Desta vez, neste naufrágio conhecido por  Port Vendres II, foi posta em evidência a origem bética dos materiais22, e lançado um debate que iria durante décadas, e ainda dura, sobre o conteúdo das ditas ânforas Haltern 70.

 

A teoria que vinga fala de vinho, ou melhor, de derivados do vinho, um conteúdo identificado pelas inscrições pintadas encontradas nas ânforas deste tipo no barco de Port Vendres II. Lia-se, neste caso, um conjunto de oito caracteres separados por um traço:

                          def/excel,

 

conjunto que foi interpretado pelos epigrafistas como

 

def(rutum)/ excel(lens),

 

ou seja, um «vinho cozido, de primeira qualidade»23.

 

O debate complicou-se posteriormente, levando os arqueólogos e os epigrafistas envolvidos a debater as diversas formas de derivados do vinho produzidas pelos viticultores da Bética24 e os respectivos nomes, surgindo por vezes o defrutum sob a forma sapa, um sinónimo25. Aos conteúdos anteriores juntou-se depois uma possível utilização da Haltern 70 andaluza para transporte de azeitonas, conservadas, neste caso, num dos líquidos derivados do vinho26.

 

Pode hoje concluir-se que a associação da Haltern 70 ao transporte de vinho ou de derivados do vinho é consensual, enquanto que outros usos são ainda assunto de debate. Todos admitem uma origem andaluza.

 

Quanto ao período de fabrico, começa em meados do século primeiro antes da nossa era, e termina cerca do ano 70 da nossa era, pouco mais de um século, ao todo.           

 

Os mais informados irão lembrar que existem indícios da presença de Haltern 70 antes de meados do século primeiro antes da nossa era: um único fragmento deste tipo foi identificado por André Tchernia, autor de uma obra magistral sobre o vinho na Antiguidade. O fragmento em questão foi encontrado nos vestígios de um grande cargueiro do período republicano, naufragado cerca do ano de 65 antes da nossa era, no local chamado Madrague de Giens, na costa francesa da Provença27.

 

O tema é comentado pela arqueóloga Francoise Mayet, co-autora dos trabalhos em Port-Vendres II, que assinala a importância deste único fragmento28 num debate sobre as ânforas produzidas há dois milénios. A desproporção entre o único fragmento, ainda por publicar, e as dezenas de milhares de Haltern 70 provavelmente produzidas ilustra o peso das novas descobertas numa disciplina cuja matéria base ainda está em laboração.

 

Neste oceano por desvendar, o mar de Peniche figura como um jardim exótico, aberto à história de uma pequena embarcação, forçosamente anónima, transportando –talvez - algumas dezenas de ânforas, contendo – talvez - um vinho andaluz, a caminho dos mercados da costa do oeste lusitano.

 

O mais intrigante deste micro universo que nos espera é o horizonte proposto pelo investigador catalão César Carreras Monfort29 que se debruçou longamente sobre as presenças ibéricas de período romano em solo britânico e no norte da Europa. Neste âmbito, o investigador catalã foi um dos autores que propuseram uma linha evolutiva da ânfora Haltern 70 a partir da descrição dos lábios30, tema particularmente relevante para a caracterização de um sítio como o dos Corticais.

 

A leitura mais abrangente que sobressai dos trabalhos de Carreras Monfort, bem como de outros investigadores contemporâneos, propõe-nos uma visão de conjunto na qual as produções ibéricas, quer de vinho, quer de azeite, seguiam pela rota continental dos vales do Ródano e do Reno até atingir os acampamentos do longínquo Limes, enquanto que uma rota alternativa, marítima e directa, muito mais rentável no plano económico, mas menos ligada aos monopólios das redes estatais, seguia pelo Atlântico fora, cortando caminho através do Golfo da Biscaia, até atingir as águas do Canal da Mancha, a partir do Finisterra da Galiza de hoje.

 

Uma tese recente, da autoria de Rui Morais, investigador da Universidade do Minho, faz o recenseamento dessas presenças de Haltern 70 ao longo do Noroeste ibérico. É neste leque difuso, e aliciante, que se inscrevem os fragmentos até agora descobertos nos Cortiçais, bem como os que irão ser postos à luz do dia, durante as próximas semanas.

 

Quanto à complexidade, em geral, do tema genérico das ânforas, a constante evolução dos conceitos, a avalanche ininterrupta de reavaliações, discordâncias ou distanciamentos entre os pontos de vista dos peritos reflectidos nas publicações disponíveis, um psicólogo dos processos cognitivos, Claude Bastien, num livro magistral intitulado Les connaissances de l’enfant à l’adulte. Organisation et mise en oeuvre, fornece algumas pistas para integrar a aparente cacofonia num universo por um lado muito humano, por outro lado muito operacional, o dos «peritos».

 

Pilotos da barra

 

Uma das fontes utilizadas por Claude  Bastien para a sua abordagem dos processos utilizados pelos peritos em geral é uma experiência feita com seis médicos especialistas. A experiência tinha como objectivo sondar a maneira como peritos de um ramo determinado, neste caso a medicina, tratavam a informação que lhes era submetida, neste caso relatórios médicos.

 

Tratava-se, portanto, de testar a pertinência, para esses peritos, de uma representação modelizada da disciplina.

 

Os resultados fizeram surgir três conclusões essenciais:

 

1- A correspondência entre as opiniões dos peritos e os constituintes do modelo31 é fraca.

 

2- Existe uma grande diferença de opiniões entre diversos peritos sobre um mesmo relatório (compte-rendu).

 

3- Para os peritos, as ligações entre conceitos têm muito mais a ver com uma representação operatória (opératoire) do que com uma representação semântica32.

 

Ou seja, cada perito submetido a um «caso» por analisar, activa imediatamente zonas já memorizadas do seu conhecimento operacional e não o conjunto de um conhecimento estruturado que seria, neste caso, a própria «visão» da disciplina.

 

Bastien cita outras experiências em campos tão variados como militares pilotos de caça durante a preparação de voos a baixa altitude, ou ainda técnicos encarregues da manutenção de sistemas nucleares.

 

Aplicada à arqueologia em geral, e às ânforas em particular, a leitura de Claude Bastien torna fluido para o leigo o subtil concerto de vozes discordantes da «Biblioteca».

 

Em cada caso, observa Claude Bastien, «a racionalidade que preside é a da acção e não a das relações semânticas que organizam o conhecimento geral»33.

 

Ou seja, cada perito vê o mundo sob o prisma da sua própria r